OlhaVou te contar, foi difícil. Precisei revirar minha vida, pra te
transferir pro quartinho de empregada. Me mudei por completo, por fora,
cabelo, unha, roupa. Por dentro, jeito, pensamentos, coração. Precisei
de outros caras andando pela casa e me
enjoando, até um dia, um deles me fazer rir. Como você nunca tinha
feito. E depois outro e você foi deixando de fazer falta. Só não quero
que você me culpe. Sou outra, porque você me transformou, porque foi
preciso. A mesma ia continuar sendo sua, de corpo e alma presa num nada.
Você nunca foi embora, mas também nunca ficou. Pensava em mim, mas
nunca se importou de verdade, nunca se esforçou pra dar certo. Sua
ausência já me feriu muito, me fez pensar que eu nunca ia conseguir de
fato partir e aceitar uma ausência definitiva. Mas hoje já não me
importa, porque tua presença não compensa os dias de espera. Porque seu
telefonema não me dá frio na barriga e sua voz não me deixa mais sem
chão. Eu fechei meus olhos pro mundo pra só enxergar você e fiquei cega
por muito tempo. Mas depois de olhar o mundo de novo, você já não tem
mais cor, não se destaca. E tudo isso foi culpa sua, obrigada. Tantos
conselhos de amiga que eu engoli pra continuar de olhos fechados, mas é
assim, não é? Era você quem tinha que me fazer desistir, mais ninguém. E
tá feito, tô feliz, sou outra e sou minha. Aprendi contigo mais do que
havia aprendido toda a minha vida, voltei a ser minha com a mesma
intensidade que fui sua um dia. Precisei de mil textos sobre você,
distribuir essa loucura em linhas e hoje, vim te encerrar com as mesmas
linhas que te deram início, continuidade e, agora, fim.

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